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                             O PROFETA

 

 

 

  Encantados por suas palavras centenas de pessoas seguiam o profeta pelas aldeias. No final das suas dissertações, todos saiam de sorrisos abertos como que atravessados por um relâmpago de leveza e angelitude.

  Certo dia, o profeta olhou à sua volta, muito depois de terminar suas palestras… Uma tristeza intensa e profunda penetrou nas profundezas da sua existência. Deambulando pela infinita solidão da noite, deixou-se andar. Caminhava, dentro de si, com os mesmos desertos que aprendeu a amar. Viu que, suas sementes só vibravam enquanto fosse jorrado de sua boca a fonte cristalina da palavra.

  Levando em seu íntimo a noite, aquele homem, acordou para um novo dia. Desta vez, realizava suas rotinas em silêncio profundo. A multidão que o seguia murmurava inquieta tecendo conjunturas sobre o que lhe poderia ter sucedido.

  «É o fim do mundo!» diziam uns. «Perdeu seu Dom!» comentavam outros. O reboliço se instalava pelas aldeias. O silêncio do Profeta era perturbador e castrante. Seus seguidores saíam tristes e sem vitalidade após terem-no seguido.

  Um grupo pequeno de pessoas começou a reparar que ele apenas executava tarefas. Cada tarefa tinha a atenção desmesurada do momento…o foco. Seus gestos eram de profundo amor por todas as criaturas e seres vivos da terra. Era visível a gratidão por tudo até nas coisas mais simples. Era solidário com os anciões, divertido com as crianças. Mas as palavras, aquelas que serviam de manjar para seus seres famintos, não existiam!

  Tocados pela grandeza dos seus gestos, alguns seguidores e que, agora, já não eram muitos, seguiram-no ajudando ou imitando-o. O Profeta continuou calado, desta vez, sentindo o seu coração a sorrir!

  Recolheu aos seus aposentos mais cedo. No dia seguinte, decidiu não aparecer. Seus seguidores estranharam a falta da sua presença. Mais outro dia e nada. Um dos seus discípulos decidiu visitar sua casa para verificar se estava tudo bem. Ele não estava em casa, tinha desaparecido!

  Após alguns dias, cansados da espera e pensando que aquele misterioso homem não voltaria, seus seguidores reuniram-se. Todos, sem excepção, sentiam a falta do mestre. Conversando, chegaram à conclusão que deveriam continuar seu legado e fazer como ele fazia. Passado um tempo de envolvência nas tarefas já ninguém sentia saudade daquele homem. A energia dele estava naquilo que faziam!

  Cerca de um mês depois, o Profeta regressou. Veio disfarçado e olhando seu pequeno grupo de homens, sorriu. Viu o entusiasmo gravado no olhar de cada um deles. Já não o imitavam mas faziam valer, nas tarefas que desempenhavam com amor, a sua identidade…a sua essência. Na praceta, um deles, tecia um iluminado discurso sobre as virtudes do amor e os sinais da vida.

  O Profeta não se revelou, havia cumprido sua missão e peregrinou para outras paragens. No deserto, suas sementes germinaram dando origem a um oásis. Já não precisavam de um guia porque haviam descoberto o melhor guia, dentro delas! Comungavam, directamente, com o Criador através do milagre das coisas incomensuravelmente simples mas infinitamente belas…

  E, foi assim, que aquele homem ficou conhecido nas histórias daquelas regiões como o Profeta Sem Voz!

 

 

 

[ Â© João Bettencourt ]

13.03.2016

 

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